O fenômeno ganhou fama quase tão rapidamente quanto o próprio filme. A "Depressão Pós-Avatar" virou tema de várias reportagens e está lotando fóruns de discussão na maioria das comunidades virtuais.
Mas não vi nenhum artigo que pareça dar conta do fenômeno, ainda que eu tenha lido reportagens que entrevistaram psicólogos e médicos. Acho que nenhum deles captou o espírito do problema, que acredito ter duas componentes, uma bem superficial e outra muito mais profunda.
Como eu também vi e gostei muito do filme, resolvi despejar-lhes minha própria teoria sobre o Avatar's Blues - expressão felicíssima, mas impossível de traduzir para o português porque, em inglês, o blue comporta tanto a cor dos personagens do filme quanto a deprê que envolve uma incrivelmente grande parcela dos espectadores.
Primeiro o mais simples.
Avatar é - antes de tudo o mais que ele também é - um épico. E os caras de Hollywood têm a receita dos épicos há décadas. Um herói funciona como um ímã para atrair - não por magnetismo, mas pelo fenômeno psicológico da projeção - os anseios dos milhões de espectadores de vida comum que gostariam de fazer algo que valesse a pena, que desse sentido à sua própria vida. Algo que desse provas para eles mesmos de que seriam capazes de fazer algo de fato importante - ainda que, na imensa maioria das vezes, eles não o sejam.
A receita sempre se completa com uma mulher bonita - e que ET linda, hein? - que realiza uma parte mais ou menos importante do feito. A parte feminina atende tanto à crença de que, por trás de todo grande homem há sempre uma grande mulher, quanto preenche os estereótipos mais tradicionalistas, que por sua vez atraem a projeção das mulheres que, sentindo-se na pele da heroína coadjuvante, sentem-se capazes de conquistar um "homem de verdade", ou um "que vale a pena".
Agora o mais profundo.
A vida dos Na'Vi, incluindo Pandora, seu mundo, contém a maioria dos elementos mais idealizados pela humanidade. Uma vida em completa harmonia com a natureza e com os semelhantes e dessemelhantes, um sentimento de pertencimento ao mundo, intensificada pela capacidade de conectar-se fisicamente aos outros seres, uma sociedade igualitária e harmônica, e uma espiritualidade plena, com locais sagrados em que o misticismo dá lugar a uma conexão direta com a divindade.
O que mais um humano comum poderia querer? Igualdade, liberdade, fraternidade, espiritualidade plena, tudo recheado com a ação e a movimentação do épico, onde um herói defende os valores mais profundos acalentados por seres de qualquer planeta ou galáxia.
A receita é infalível e certeira para deleitar a todos, mas também para capturar os de alma mais sensível.
A vacina contra a Depressão Pós-Avatar, para todos aqueles que estão chorando nos fóruns, é bem simples: Separe as duas componentes do filme, identificando o que é épico e o que é a vida bucólica dos Na'Vi.
Dentro da própria fantasia, volte alguns anos na história de Pandora, antes que os humanos tivessem chegado. A vida dos amigos azulões é basicamente a vida de uma tribo indígena, mais proximamente talvez de uma tribo extinta de índios norte-americanos, ou mesmo de uma pequena cidade do interior - um baita tédio, onde, além de poder ser comido por uma fera a qualquer momento, tudo o mais é harmoniosamente previsto: os jovens passarão por um ritual para a vida adulta e a filha da feiticeira vai se casar com o guerreiro mais forte. E end of life.
E o movimento? E a ação? E um ritmo menos entediante da vida? E os desafios, a mudança, a evolução? Bom, para isso, é necessário inserir os humanos nesse mundo paradisíaco. E como, para criar o novo, é preciso destruir o velho, os humanos aparecem como os vilões, os subversores da ordem. E isto faz muitos quererem seguir JackSully e fundir-se com os Na'Vi, tornando-se um deles. Comemos a maçã no paraíso dos Na'Vi.
O fato é que sempre sonhamos com o paraíso, mas nenhum humano conseguiria viver em qualquer paraíso beatífico idealizado por qualquer profeta. Precisamos de ação, no sentido mais amplo do termo, do trabalho, do labor, do conhecimento, e da possibilidade de subverter ordens que envelheceram. O mundo dos Na'Vi não nos serviria.
Assim colocado, e eu só escrevi isso tudo aí em cima porque vi alguns jovens escrevendo nos fóruns sobre pensamentos de suicídio depois de verem Avatar, pode dar a ideia de que estou tentando depreciar o filme. Não estou. Como eu disse, eu gostei muito do filme.
Acho que Avatar já marcou seu lugar na história e será responsável pela criação de tribos e comunidades ao redor do mundo, assim como acontece com Jornada nas Estrelas e Guerra nas Estrelas. Mas acho que Avatar, em alguns aspectos, foi além dos dois.
O mundo de Jornada nas Estrelas também contém vários dos nossos anseios, como uma sociedade igualitária e justa, mas é um mundo "seco", certinho demais, militarizado e totalmente sem espiritualidade. Tudo é lógica, tudo é previsível e a tecnologia muitas vezes supera o homem.
Guerra nas Estrelas fez mais ao incluir a espiritualidade dos Jedi. Mas, a exemplo das religiões tradicionais aqui da realidade, era uma espiritualidade para poucos, para iniciados, só cabendo aos pobres mortais aceitarem as "interpretações" da Força, incluindo o uso da Força pela força, fornecidas pelos Cavaleiros.
Avatar tem uma espiritualidade mais plena, compartilhada por todos. Isso deixa em aberto, para quem vê o mundo de fora - nós, os da realidade - todas as possibilidades de nos fundirmos com a divindade e, em última instância, também sermos deuses.
Isto supera o fato de que o mundo de Pandora é uma etapa pela qual os humanos já passamos e já superamos.
Falta em Avatar a tecnologia que sobra em Jornada e Guerra nas Estrelas. O que todos queremos, principalmente os que estão sofrendo da Depressão Pós-Avatar, é um mundo no qual percebemos nosso valor para além da mera existência biológica com uma força suficiente para levarmos uma vida em que todos têm os mesmos direitos e deveres segundo as possibilidades de cada um. É certo que parece ser mais fácil sonhar em transportar-se para o centro de uma experiência 3D virtual. Mas esta é a mesma armadilha que faz muitos perderem o contato com a realidade por meio do prazer fácil das drogas.
A beleza da realidade é que tudo isso que nos cativou no filme e nos apaixona tanto está justamente à nossa frente, esperando para ser construído. Mas ser herói não é para qualquer um.
No início era o Verbo. Depois vieram os verbos. Desde então vivemos condenados a ser, ter, fazer. Mesmo meditar e contemplar são verbos. Se você só quisesse ficar e admirar, ainda assim não teria escapado da maldição.
Mas seria possível algo sem verbos? Um texto sem verbos é, conforme demonstrou um autor não identificado, no jornal Le Petit, na França, em 1897 [Via ReporterNet]:
Verbos! Coisa intolerável da convenção antiga e ridícula para o atulhamento da frase, geralmente viva, leve e clara, sem eles!
Invenção antipática e com a complicação de acordos e não-acordos de particípios; armadilha, aliás, pérfida para os exames de gramática. Por que não a supressão do verbo antes da reforma da ortografia?
Além disso, que lição maravilhosa para nós a ausência deles num grande número de adágios da sabedoria humana! Exemplo: "Pequenas causas, grandes efeitos" etc. Que facilidade de trabalho, para as memórias rebeldes, nessa concisão de forma!
Nenhuma palavra em excesso; nada de fútil, de embaraçoso; a essência concentrada da frase, com quatro ou cinco palavras: o "Liebig" o pensamento!
Sim, o verbo eis o inimigo! Guerra contra ele! Morte aos indicativos, aos subjuntivos, aos imperativos, aos infinitivos, enfim, a tudo em "ivo" e, principalmente, ao terrível mais que perfeito do subjuntivo, triunfo dos belos falastrões do Sul, desde Avinhão até Caracole.
Em lugar das odes na Academia, na Comédia Francesa, na inauguração da ponte Alexandre III, por que não um simples cumprimento, sem verbo, ao tsar e à tsaritisa?
Novidade apreciável, certamente, para tais festas, notáveis pelas surpresas, pela decoração das ruas, pelo engrinaldamento das fachadas, pela floração artificial das árvores sem folhas, na praça central dos Campos Elíseos.
Uma saudação sem verbo, ao tsar, que maravilhosa resposta à invasão desta estranha literatura do Norte, mas arrogante de seus sucessos ibsenianos entre nós e de sua influência fantástica nos costumes do nosso teatro!
Que desafio ao mundo intelectual dos outros países! Que assombro no universo inteiro: a supressão do verbo na literatura da França! Coragem e confiança no progresso!
Esperança, sobretudo, da mudança completa das regras gramaticais.
E qual melhor surpresa, para a inauguração da Exposição mundial de 1900, que a ausência total do verbo - mesmo do mais útil na aparência - nos votos de boa vinda do Presidente da República da época - (sem dúvida o mesmo de hoje) - aos seus imperiais visitantes: Nicolau II, o xá da Pérsia e Menelik, os três bons amigos da França!.
Vale como curiosidade? Pode até ser. Mas vocês perceberam o insosso, a falta de qualquer proposição, enfim, vocês sentiram a falta dos verbos?
É por que só seguindo a trilha dos verbos podemos chegar ao maior deles, sem o qual não podemos cumprir nossos destinos: criar.
Sem verbos não é possível fazer o que mais aspiramos, superar a nós mesmos e manter acesa a possibilidade de igualarmos a perfectude dos anseios que projetamos nas divindades. Porque nosso destino é sermos como nossos deuses, cujo principal atributo é a criação. E tudo é ação, tudo é verbo, nesse meio do caminho.
E também no fim, tudo o que importará será o verbo, sobretudo o maior de todos: criar. E, se algo faltar no fim, criaremos novos começos e prometeremos novos fins mais perfeitos. E tudo continuará sendo. Inclusive nossa arrogância.

Na mesma semana que descobri que os cientistas já conseguem aprisionar um arco-íris e ainda ficar curtindo sua beleza num microscópio, achei essas esculturas de raios numa reportagem da BBC.
Elas são feitas pelo engenheiro norte-americano Bert Hickman. Depois de dedicar a vida inteira a domar a eletricidade, ao se aposentar, ele resolveu soltá-la em sua infrene liberdade, pelo menos por alguns microssegundos. E, a seguir, capturá-la para sempre num pedaço de acrílico.



Para formar imagens em 2D e em 3D, fractais belíssimos, o engenheiro de 62 anos, utiliza o que ele chama de um acelerador de partículas, com tensões de até 5 milhões de volts.
"O acelerador injeta um enorme número de elétrons dentro dos moldes de acrílico, criando uma descarga elétrica de até 2,5 milhões de volts", explicou ele à BBC Brasil.
Segundo ele, a "nuvem" interna de descarga elétrica é semelhante à que se acumula em nuvens durante uma tempestade.
"Quando os elétrons presos saem correndo repentinamente, eles criam uma descarga elétrica breve, mas muito forte, parecida com a de um raio."

Como quebrar uma ligação carbono-hidrogênio e depois criar novas ligações para juntar moléculas?
Como essas ligações são muito comuns nos compostos orgânicos naturais, elas são alvos ideais para os caras que ficam tentando manipular e construir novas moléculas.
A resposta já foi encontrada pelos químicos há muito tempo, e hoje a indústria, principalmente a farmacêutica, faz isso o tempo todo.
Mas não faz muito bem: a coisa é ineficiente e, algumas vezes, nada fácil de se conseguir. O processo é conhecido como reação de Mizoroki-Heck.
Em um artigo publicado na Science Express, o grupo do professor Jin-Quan Yu criou uma verdadeira receita de cozinha, de tão simples que é, para resolver as dificuldades do método tradicional.
Pegue um pouco de vinagre - hum... ácido acético. Usando aminoácidos, construa algumas moléculas capazes de se ligarem a um ponto específico de um catalisador metálico - você não vai ver uma receita dessas na Ana Maria Braga, mas também não é rocket science.
Devido ao formato específico dessas moléculas ligantes, elas guiam o metal para quebrar a ligação carbono-hidrogênio numa posição particular seletivamente. A seguir a coisa caminha naturalmente para um nova ligação carbono-carbono entre as pontas liberadas.
É só servir e rende tantas porções quantas você queira.
"O artigo publicado na Science é a primeira demonstração de que podemos realmente pegar um derivado do ácido acético e, a partir daí, construir uma molécula muito complexa,", disse Yu. "E, no entanto, em nenhum dos passos do processo nós usamos qualquer coisa que um leigo não possa encontrar na prateleira. Nós a chamamos de 'química do leigo'. Avaliamos que esta reação e outras baseadas nesta filosofia vão encontrar muitos usos."
Fontes: Artigo de divulgação da pesquisa e artigo científico na Science (para assinantes).
Muito boa a palestra que o professor Miguel Angel Quintanilla, da Universidade de Salamanca, fez aqui na Unicamp sobre a responsabilidade na divulgação científica.
Ele discorreu sobre as diversas abordagens da divulgação científica e sobre como essas teorias afetam a própria divulgação e os seus efeitos.
A grande mensagem da palestra é que a informação científica não deve servir para ameaçar ou para agradar os cidadãos, mas para torná-lo consciente e responsável pela ciência que seu país produz.
O Fábio Reynol, da Agência Fapesp, fez um bom resumo, e não vale a pena tentar fazer melhor. Vou aproveitar o texto para fazer umas poucas ressalvas.
Quintanilla apresentou os dois principais modelos teóricos utilizados para estudar a divulgação científica, "Déficit Cognitivo" e "Contextual", e por fim mostrou a sua proposta batizada de "Perspectiva Cívica" por se basear nos princípios de cidadania.
O modelo de Déficit Cognitivo pressupõe uma sociedade dividida entre especialistas e leigos. Os primeiros detêm o conhecimento científico e os demais necessitam dessa informação especial. Segundo Quintanilla, trata-se de um modelo pragmático que preconiza que a sociedade deve conhecer a ciência a fim de apoiá-la.
Para o pesquisador, o modelo de Déficit é o responsável por distorções na comunicação da ciência. "Perguntas como: 'o acelerador de partículas LHC pode gerar um buraco negro e engolir o planeta?' não tem a ver com ciência e são fruto da divulgação científica que tem sido feita", disse.
Aqui eu discordo. A proposta dos buracos negros eventualmente gerados pelo LHC partiu de físicos bem formados e bem estabelecidos na academia. A imprensa apenas reproduziu o debate. Não sei se há jornalistas científicos com o aparato científico necessário para fazer uma proposta dessas.
Infelizmente, a visão de dentro da universidade sobre a divulgação científica não deixa de ter o seu próprio viés cientificista, perdendo bastante a própria nuance de cidadania que o próprio professor estava defendendo.
Segundo ele, o uso de metáforas inadequadas por publicações jornalísticas são causas desses desvios. Como exemplo, citou a expressão "a partícula de Deus", que um periódico espanhol utilizou ao se referir ao LHC.
Isto também está incorreto. A expressão Partícula de Deus foi cunhada pelo fisicíssimo Leon Lederman para se referir ao Bóson de Higgs.
Já o modelo Contextual, pelo qual a informação sobre ciência deve apresentar os contextos social, econômico e político no qual a atividade científica está inserida, também traz problemas, de acordo com o professor espanhol. Ao apontar possíveis redes de interesses por trás de cada pesquisa, o modelo estimula um ceticismo exacerbado e propicia visões conspiratórias da ciência.
Como exemplo, citou o tema "alimentos transgênicos", que suscitaria reações contrárias de pessoas que associam qualquer discurso favorável a técnicas de manipulação genética aos interesses de grandes corporações internacionais.
De fato problemático. Mas como não falar quem financia as pesquisas? Evitar teorias da conspiração é um dever jornalístico, mas não se pode negar que há interesses envolvidos em grande parte das pesquisas. É mais ou menos como a discussão das drogas: ninguém quer defender as drogas, mas enfrentar o problemas requer admitir que as drogas dão prazer de fato às pessoas.
Sobre os interesses, só um exemplo: há poucos dias recebi uma encomenda de reportagem de um jornal aqui de Campinas para falar sobre uma "descoberta" de que o chocolate alivia o estresse emocional. Mandaram-me o link para o artigo, mas olha só para quem o principal pesquisador trabalha... Não aceitei a encomenda.
A proposta de Quintanilla é o modelo de Perspectiva Cívica, o qual tem por finalidade fortalecer a prática da cidadania ao suscitar no indivíduo a responsabilidade pela ciência que é produzida em seu país. Para tanto, é necessário que se conheçam as características intrínsecas da atividade científica e se saiba como esse tipo de conhecimento é produzido.
Como as outras duas teorias, essa proposição também tem problemas, como o efeito chamado "ciência na vitrine", no qual ela é tratada como mercadoria de luxo a ser vendida pelas regras do mercado. Para Quintanilla, o conhecimento científico é um luxo, mas que deve ser colocado ao alcance de todos. "Devemos difundir, não vender esse conhecimento aos moldes do marketing", afirmou.
Diferentemente do modelo de Déficit, que apresenta a informação científica como uma cascata que vem dos pontos mais altos (os cientistas) para atingir os vales (os leigos), a Perspectiva Cívica ensina a divulgação horizontal da ciência por meio da difusão por publicações jornalísticas, clubes de ciência, museus e escolas,
entre outros. Para isso, a ciência tem que ser passada como uma ilustração da realidade que não deve ser deformada, mas representá-la de modo fiel.
Gostei da frase de conclusão, por isso grifo;
"A ciência não contém todos os elementos da realidade, mas, assim como um mapa de uma cidade, reproduz com fidelidade alguns aspectos dessa realidade. Nós, divulgadores da ciência, devemos ser capazes de fazer bons mapas do conhecimento científico".
Ontem fui assistir o tão divulgado 2012, que fez até a NASA se manifestar sobre o não-fim do mundo.
O filme não é bom. Tem cenas de destruição catastrófica muito bem feitas, tem um ator muito bom fazendo o papel de cientista, mas a coisa pára por aí.
Armagedon e Impacto Profundo são melhores. 2012 tem uns cortes estranhos que quebram o suspense. E depois tem aquelas cenas passadas para a tela diretamente das câmeras digitais, sem o tratamento que as "cinematize". Fica muito ruim: quem vai ao cinema quer ver filme com cara de filme e não filme com cara de documentário da Discovery. O som merece aplausos, é muito bom.
Sobre a profecia dos maias, o filme perde oportunidades magistrais de abrir caminho para continuações. E quem perde é o espetáculo. Aliás, o filme não faz juz à propaganda. As referências aos maias são mínimas e não vi razão para que vários cientistas, além da manifestação oficial da NASA, tenham vindo a público tentar acalmar as almas em desespero.
Ainda mais que o filme termina exatamente seguindo o script religioso mais tradicional no ocidente: um dilúvio. E, de quebra, não uma, mas três arcas high-tech.
Acho mesmo incrível como a questão do fim do mundo atrai tanto a atenção e ainda hoje encontre eco nas mentes de tantas pessoas. É claro que "o mundo" vai acabar um dia. A vida orgânica baseada em carbono aqui na Terra vai acabar primeiro - basta uma leve flutuação no brilho do Sol e estará feita a vontade de todos os que aspiram um outro mundo que não conseguem construir.
Mas isso é outro assunto. Cinema é arte, assim como apocalipses, maias ou não, são literatura.
Sob o título Golpe baixo ou denúncia vital?, Eric Camara contou no blog da BBC sobre a invasão de um hacker em uma das instituições de pesquisas sobre o clima mais ligadas ao IPCC.
A invasão resultou na exposição de centenas de emails trocados entre os pesquisadores, alguns deles falando sobre uma suposta "ajeitadinha" nos dados, que aparentemente teimavam em não confirmar o aquecimento. Vejam o que disse o Eric:
Faz alguns dias que vem fervendo na internet um debate sobre o roubo de emails e documentos de um dos mais respeitados centros de pesquisa sobre mudança climática do mundo: a Unidade de Pesquisa sobre o Clima da universidade de East Anglia, aqui na Grã-Bretanha.
Hackers invadiram a rede da instituição e levaram mais de 3 mil arquivos, entre emails, pdfs, docs e outros. O material foi carregado em um servidor russo e de lá copiado para milhares de sites, principalmente pelos chamados "céticos", como este, de Anthony Watts.
Para Watts e outros, alguns dos emails hackeados, datados de uma década atrás, forneceriam provas de manipulação de dados para que estudos científicos dessem a impressão de aquecimento global.
Entre os principais exemplos da suposta armação estão o uso de palavras como "trick" (truque) em uma frase que fala sobre adicionar temperaturas a uma série histórica de forma a "esconder o declínio".
No entanto, o blog Real Climate, que já contou com a participação de alguns dos envolvidos na polêmica, publicou uma longa defesa, na qual, em resumo, afirma que os emails nada mais são que discussões científicas feitas em fóro privado, e por isso, com uma linguagem descuidada.
Promete render mais polêmica... Mas quem quer que esteja com a razão neste caso, para mim, a pergunta que fica no ar é: a duas semanas da reunião de Copenhague, qual teria sido a intenção desse hacker?
E a imprensa?
Eu achei que a imprensa ia cair de pau em cima, fazer o trabalho jornalístico, pedir explicações aos cientistas e tudo o mais. Afinal, não é assim que acontece quando vazam documentos e ligações telefônicas miraculosamente grampeadas?
Pois é, a imprensa calou-se quase completamente. Os que falaram, pelo menos por aqui, deram uma de varrer a coisa para debaixo do tapete.
O problema
O grande problema de tudo isso é a repetição de uma história que a humanidade conhece há muito tempo.
Tudo começou quando alguns cientistas da área do clima resolveram imitar seus antigos rivais, os religiosos - afinal, se uma igreja dominou o mundo por dois milênios, porque não usar os mesmos artifícios e nos tornarmos os sacerdotes da verdade da vez?
Então eles dividiram o mar vermelho da discussão climática entre crentes e céticos.
Nesse momento, os argumentos, as teorias, a razão e, junto, a ciência, tudo deixou de ser importante. Quem detém a autoridade manda os outros calarem-se. Ou nem precisa mandar calar. Basta ridicularizar.
Eu não sou nem crente e nem cético, nem nessa discussão e nem em muitas outras, porque acredito que a razão não cede a essas necessidades binárias de se ser contra ou a favor.
Mas eu aprendi que a ciência faz aproximações sucessivas do conhecimento, com "verdades" precárias, é certo, mas sempre baseando-se nos melhores dados disponíveis. E, sobre aquecimento global e temas correlatos, não tenho visto mais a doce presença da ciência há muito tempo. E, não obrigado, eu não quero me tornar um "crente científico" nesta e nem em qualquer outra matéria. Tragam minha ciência de volta!
Teoria dos conspiradores
Como argumento de ridicularização, surge sempre o famoso bordão teoria da conspiração. Ora, me poupe. O que eu gostaria de saber é se os dados foram mesmo ajeitados ou não. Só isso.
Os emails que cheguei a ler contam isso claramente, inclusive com pesquisadores afirmando que não assinariam o artigo com tais ajeitadas. (se você for baixar o arquivo hackeado nos links acima, tome cuidado com os links nos comentários para sites da Rússia).
Além do mais, os argumentos de ridicularização erram no alvo quando tentam varrer a sujeira para debaixo do tapete - por exemplo, pode-ser perguntar se os artigos eventualmente manipulados são essenciais às conclusões assumidas pelo IPCC ainda hoje.
Mas, repetindo, a ciência deixou de ser importante em quase tudo o que diz respeito a mudanças climáticas e ao aquecimento global. Ética, então... aliás, alguém aí sabe para o que serve essa tal de ética? Parece que a ética nas pesquisas não se aplica a pesquisas sobre o clima e ninguém sente falta disso.
Basta ver outras das mensagens hackeadas. Há pesquisadores propondo boicote a revistas científicas que aceitaram artigos que mostravam conclusões diversas das "oficiais", há "pares" falando em não aceitar artigos de outros pesquisadores que seriam submetidos a revisão, há gente falando claramente em não repassar os dados para os que não são da turma... E por aí deve ir, porque eu não tenho tempo de ficar lendo tanta coisa.
E esta não é a primeira vez que e-mails vazados mostram a supressão de opiniões contrárias: veja esta reportagem da CNET.
Ante a defesa dos crentes - a quem interessaria esse vazamento às vésperas da reunião de Copenhague - eu devolveria a pergunta: há alguém especialmente interessado em dizer que o mundo está se aquecendo pela ação do homem, ainda que isto eventualmente possa não estar acontecendo?
O que você prefere, caro leitor, uma crença no que quer que seja, com a ilusória segurança que todas as crenças dão, ou as conclusões da ciências, sempre caprichosamente cambiantes, mas sempre levando a uma aproximação maior da verdade?
E eu perguntaria mais: Se a questão é falar em interesses e conspirações, o que será que estaríamos deixando de discutir nos espaços e nos tempos hoje ocupados pelo assunto?
Como eu disse, não sou crente, logo não tenho as respostas prontas. Também não sou cético, logo não tenho minhas próprias verdades. Mas, como jornalista, tenho o dever de fazer as perguntas.

A BMW vai começar a equipar suas motos com faróis de neblina de LED. Cada farol de LED, fabricado pela Osram, consome 14 watts, contra 55 watts dos atuais, que usam lâmpadas de halogênio.
O menor consumo de energia vai permitir que a empresa equipe também motos menores com faróis de neblina, o que não era possível porque a bateria e a fiação das motos menores não suportava os 110 watts do par.
A propósito, os engenheiros calculam que a vida útil dos faróis de neblina de LED é maior do que a vida útil da motocicleta.
Veja aqui as últimas novidades sobre LEDs.
Matéria com um título muito interessante, que estava até agora há pouco na página da Agência Brasil.
Clique na imagem para vê-la ampliada.

Se já não bastassem todas as dificuldades da exploração espacial, a biologia pode ser o maior entrave para o homem em sua busca de explorar os confins do universo
Cientistas japoneses fizeram um experimento que simula a gravidade zero - ou microgravidade - e concluíram que mamíferos podem ter problemas para se reproduzir no ambiente espacial.
Estudos anteriores, feitos a bordo de várias naves e da Estação Espacial Internacional, já demonstraram a viabilidade da reprodução no espaço de peixes, anfíbios e pássaros.
Quanto aos mamíferos, ratas já em estado avançado de prenhez aqui embaixo deram à luz no espaço sem problemas. Mas a coisa não foi bem quando elas engravidaram lá em cima - as gravidezes acabaram em abortos espontâneos, embora o experimento, realizado em 1979, não tenha descoberto as causas dos problemas.
O Dr. Teruhiko Wakayama, do Instituto Riken, no Japão refez essa pesquisa, graças a um equipamento chamado clinostato (na foto), uma geringonça rotativa que reproduz as condições de microgravidade do espaço por meio de um movimento contínuo de rotações em 3 dimensões. Esse aparelho já foi usado também para demonstrar o geotropismo e o heliotropismo das plantas.
Wakayama fez a fertilização dos ratos in vitro no interior do clinostato - um primeiro lote em gravidade 1G normal e um segundo lote em gravidade zero. Os resultados indicaram que a microgravidade teve efeitos mínimos sobre a fertilização.
Mas o desenvolvimento posterior foi grandemente afetado pela fertilização em microgravidade. Os embriões alcançaram o estágio bicelular e geraram filhotes depois de implantados em fêmeas em ambiente normal, mas a uma taxa significativamente menor do que os embriões fecundados em ambiente 1G.
Os pesquisadores registraram efeitos negativos mais danosos quando os embriões foram mantidos em cultura por mais tempo no interior do clinostato, em microgravidade.
A falta de gravidade levou a uma redução global na taxa de formação de blastocistos após 96 horas de cultura. Uma análise mais aprofundada desses blastocistos revelou que a diferenciação das células embrionárias em trofectoderme foi muito prejudicado - trofectoderme é o tecido que nutre o embrião e, em última análise, contribui para a formação da placenta.
Agora os pesquisadores vão repetir os experimentos simulando o ambiente de gravidade da Lua (1/6G) e de Marte (1/3G). "Eu quero saber quanta gravidade é necessária para uma reprodução normal," disse o pesquisador.
Fica assim: a gente vai em direção à fronteira final, mas as mulheres terão licença-maternidade de 6 eons para poderem voltar à Terra trazendo os espermatozoides do companheiro, faz a fertilização artificial aqui, e depois voltarem com o bebê para o espaço. Se bem que, com a quantidade de exoplanetas que estamos descobrindo, não teremos dificuldades em achar outros locais para uma fertilização natural.